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quarta-feira, 20 de março de 2013

se realmente desejas saber


metralhadora cuspindo palavras aleatórias que fazem todo sentindo por não terem sentindo nenhum.

anêmica, depressiva, com aids, falta de personalidade, confusa, paranóica, viciada, suicida, diabólica, masoquista, pedófila, sem carro, Lolita Pille como influência pra viver, estranha, mentirosa, a David Bowie song, não acredito em pessoas, pirada, em crises constantes, vomito sobre os sentimentos artificiais, falsa, infeliz, jogo lixo na rua, pseudo-intelectual, sem amor pra receber, com câncer, problemática, cega, com ódio, live fast die young, falta de caráter, assassina, super bitch, falo sozinha, não amo, adulta, egocêntrica, nojenta, arrogante, drogada, prostituta, indisposta, fútil, sem graça, ciumenta, insegura, com filhos, they call me Hell, preguiçosa, lerda, feia, idiota, vilã, inconfiável, chata, besta, muda, retardada, feia, passando mal, decadente; me chamam de emo, paty e punk, mas na verdade eu nada sou; o primeiro encontro é o último, fria, Kurt Cobain, falo durante o sonho, perdedora, carpe diem, o mundo vai acabar e isso me deixa em paz, sem escovar os dentes por dias, mimada, vingativa, volto ás cinco da manhã, rancorosa, bulímica, lunática, auto-destrutiva, uma mistura louca de coelha, cabra, macaca e porca, repetitiva, não sou carinhosa, mania de organização, vagabunda, a little bit Thirteen, ausente, do lado negro da força, homem, não corro atrás, rebelde, desistente, anárquica, em guerra, não acredito no amor, Thom Yorke, indiferente, sem concentração, asma, sem esperanças, desafinada, prestes a explodir, suja, sem arrependimentos, não sinto falta, inimiga, não sou romântica, surda, Gus Van Sant, odeio animais, má, fugitiva, sem seios, culpada, Hell, revoltada, ladra, atrasada, falo errado, ronco, alérgica, Hitler, poser, metida, feia, pirata, tpm constante, errada, rio da desgraça alheia, medrosa, desempregada, velha, careta: não fumo, não bebo, não minto para ser bem recebido, não tenho saco pra fazer social, não danço e ainda por cima, sou crítico; uso as pessoas sem dó, desinteresante, socializo por conveniência, largada, entediada, atéia, sem conseqüências, adoro estragar a sua vida, bêbada, tenho como lema o tal ‘foda-se’, sexualmente ativa, sem consideração, oposto, não volto, com raiva, gorda, paraplégica, anorexica, anti-social, consumista, sem lar, distraída, mulher, sem auto controle, Lucy, desiludida, perdida, fraca, descabeladas, sem tomar banho por meses, consciência e rebeldia é o que eu preciso ter, invejosa, sofrendo, dou grande valor às palavras, sem amor pra dar, impaciente; "uma certa alcoolatra que não bebe , ou uma fumante que perdeu o gosto pelos cigarros , ou ate mesmo uma certa prostituta que nunca fez sexo." (joyy); irritante, sem futuro, Judas, sem respeito, pessimista, com dor, cometo erros imperdáveis, perfeitamente imperfeita, contraditória, inconformada, durmo de maquiagem, estúpida, Friedrich Wilhelm Nietzsche, nunca uso o verbo 'amar', insana, dramática, não me importo, irresponsável, azarenta, não sinto, com muitos segredos, só.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

As escolhas e as dores

     Sinto toda a dramaticidade de meu amigo Bocelli, sua voz que mostra o quanto quero tudo e nada tenho. Um certo desespero. Eu quero lhe sentir, pelo amor de Deus, deixe-me senti-lo. O silêncio a minha volta já não é confortante e as vozes que me perseguem nada dizem. Os rostos que eu vejo nada expressam, os olhos são vazios e as bocas mudas. Também não escutam o que digo - mas, e eu, sei do que falo?

     Sei do que sinto, não do que penso. Sinto tua mão à minha boca, desvendando meu corpo. Meus segredos. Seu olhar é tudo que preciso, palavras são fúteis. Minha alma o venera. Meus olhos passam por todo seu rosto tentando ver mais além. Somos crianças se aventurando na mais perfeita descoberta. Eu sei, você adora meu jeito infantil, não precisa esconder. E eu adoro o seu jeito que não sei como descrever. Então, pra que complicar? Somos tão diferentes e tão iguais, que me faz gritar. Ontem de tristeza, hoje... Você me transformou em alguém melhor, me faz feliz. Mas eu não direi que você sente o mesmo.

     Sei do riso que aparece em mim quando me lembro da tarde em que você esteve por aqui. Sinto fata de rir daquele jeito honesto por cosquinhas que tanto sentia ódio. E dói, como diz, dói muito. Mas eu sei que é questão de tempo para que toda dor vá embora, seja um por dia.

     Sei que as pessoas me criticam, que faço de tudo por algo que pode virar pó, mas não há palavras que deixe claro o quanto acho ridículo deixar de fazer o que se quer por uma possibilidade de erro. Um dia me disseram:
- Você ainda vai surpreender muito.
- Como assim?
- A gente pensa que você é quem mais tá sofrendo com tudo isso, com escolhas. E aí você se mostra mais decidida do que muita gente.

     Eu quero ariscar, tentar, dar o melhor de mim para o que mais acredito: amor. Se não for pra sempre, eu amei. E amarei sempre, com toda intensidade que puder. E agora, ao mesmo tempo que me sinto a mulher mais feliz do mundo, sinto uma imensa vontade de chorar.

texto escrito no final de 2009 e ignorado até o dia de sua publicação.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Boêmia encantadora


1milhogrande.tumblr
       Fui dormir me sentindo tão boêmia: sentada no colchão, no chão, com o notebook no colo enquanto ele dorme após horas e horas de carícias, apertos e risadas. Só me faltou o cigarro, que não fumo. Ou fumo. Se não, posso começar. Se sim, posso parar. E minha ideia de boêmia se foi: também não bebo. 'Que vida é essa que ela leva?' pensam enquanto eu me pergunto: para que me dar o trabalho de pensar? 
     Sou apenas uma senhora de oitenta anos que desistiu, há anos, dessa carreira de escritora e tenho no que pensar? Penso neste quarto que hoje durmo, penso como será essa senhora escritora que mudou-se deste apartamento, possibilitando o que aconteceu: seu quarto de escritora agora é meu. Mas olha, eu confesso, tá tudo bem bagunçado e escrita não é o que anda ocorrendo. Há, sim, muita digitação - mas sobre aleatoriedades desimportantes como nossa realidade escolar -, e muitos copos e pratos espalhados: e volto a me sentir em uma das histórias de Reginaldo Moraes. 
      Se pararmos para voltar ao meu passado e todos meu quereres, um deles é este: estudar, namorar e ser jovem. Deus me livre da infância e sua dependência de adultos. A vida está caminhando e lá estou chegando: independência, estudo e muito amor, em seus sentidos mais carnais e espirituais. Minha ansiedade explode em minhas veias pela chegada deste momento; explode meus neurônios e quase que largo tudo e recomeço a vida agora. Uma coisa é certa: tudo que vejo, lá pra frente, é a felicidade.
     Felicidade sem fantasias, a felicidade pura de não desejar a perfeição, mas a provocação da vida apontando seu dedo em minha face, e  eu respondendo para ela, sempre, sem me deixar entristecer por momentos que não temos controle. Aprendi a aprender a viver neste mundo, sem medo, sem ódio - somente reconhecendo que momentos de choro são encantadores. 


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Relacionamentos infantilizados


Se eu aprendi uma coisa até agora é que a vida é simples e as pessoas que tem esse vício em complicá-la. Vejo muita gente reclamando de relacionamentos, homens e mulheres, como se, primeiramente: se você ama uma pessoa, ela deve te amar – caso contrário, é um idiota. Então, se essa pessoa te diz um ‘não’, você usa isso como desculpa para sofrer imensamente e odiá-la para o resto de sua vida. Se ela diz ‘sim’, ótimo: até você descobrir que ela não é tudo aquilo que imaginava e termina a relação (e o outro fica te odiando, como no primeiro caso); ou ela descobre que não quer nada sério, e termina com você, e então ela é uma vadia ou uma puta por não querer nada sério (e, de novo, você passa a odiá-la).
Ás vezes acho que estou fora deste planeta, pois comigo já aconteceu todos os casos e acreditam, até hoje tenho um carinho por todos homens que já conheci. Não é difícil de entender quando um relacionamento não dá certo, mas pelo que leio parece que sim, é melhor o outro ficar fingindo que te ama do que te dar um fora.
Ando conversando com mulheres mais velhas, divorciadas e que estão em começo de um relacionamento com um homem e então percebi a diferença entre relacionamentos de adolescentes e de adultos. Bom, do adolescente é praticamente como o descrito a cima. Essa enrolação, essa foco no ‘eu tenho que ser feliz, e o outro saciar minhas vontades, se não tchauzinho’, além dessa banalização do amor que me entristece ao ver tantos ‘eu te amo’ para alguém com quem ficou junto por três meses e terminou porque ele não quis ver o mesmo filme que você. Enfim, não é difícil ver como é o relacionamento de adolescentes (crianças, melhor, da mais infantil possível).
 E do adulto? Acho que muitos já viram aquele desenho que percorre Facebook e afins, de um casal de idosos e uma fala mais ou menos assim: “Me perguntaram como nosso casamento durou 60 anos, e eu respondi: na mina época, quando algo quebrava, a gente consertava”.  Não que adianta, também, ficar consertando uma cadeira que quebra todo mês. Mas o foco é outro, afinal, como consertavam as relações? Por conversa! Diálogo, bate-papo, senta e fala que sento e te ouço. Com essas conhecidas mais velhas eu percebi que uma das primeiras coisas a se dizer quando começam um casinho é: ‘pretende ter filhos?’ ou ‘não terei filhos’. Elas e eles colocam todas as cartas na mesa antes de partir para um relacionamento. Essa é a diferença. E o outro tem que aceitar ou cair fora, mas deixam tudo claro: quero casar de novo, não quero dividir minha cama com ninguém, quero algo sério, quero que você vá pro inferno e por aí vai.
E se der certo? Os dois não querem casar, mas pretendem ter um filho daqui uns anos: como faz? Vive, oras. E nos desentendimentos buscam a conversa que dura o tempo que for necessário até se entenderem e/ou acharem uma solução. Se o caso for de terminar, se respeitam, ficam tristes, choram, mas não culpam o outro por não der dado certo – nem tudo é feito para dar certo e as pessoas são complicadas.
Talvez, se houve mais conversa sobre o que cada um realmente quer, haveria menos brigas e traições - pensem nisso.  
Então, jovens, parem de ser mesquinhos e odiar o outro por você ter levado um pé na bunda! E, principalmente, não use essa dor e ódio para causar o mesmo para outras pessoas – nem para quem te deu o fora: é um direito de todos não querer o mesmo que você e não gostar de você.  E parem com esse discurso ridículo de que ‘todas mulheres são vadias (ou todos homens são cafajestes e nenhum presta), então vou trata-las como querem’, aprendam: existe homens, mulheres e gays que querem algo sério, e outros que não. Usar um pé na bunda para se tornar um cafajeste é completamente infantil e sem sentido, somente você é responsável pelo o que você faz.
O medo de ficar solteiro, de ficar sozinho não deveria ser motivo para estar com alguém – e sim motivo para perceber o quão egoísta somos.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Melancholia


     Você diz que eu ando distante - ao seu lado, mas nas estrelas -, não vim procurar brigar, nem ao menos te contradizer. Ando em outro mundos na maioria dos meus dias e me acostumei a viajar, ir pra longe do que é real, ir, ir e ir. Como uma brisa de vento, que só vai. Foda-se pra onde, só vai. São os meus dias, noites, madrugadas nos livros e seriados e filmes: estou cercada de fantasias, para ver se me distraio dessa realidade entediante.

    Aprendi a olhar para o nada e imaginar a gente, meu passado, meu futuro. Só paro e fico olhando, 'monossílabaca' com quem vem conversar, já que pessoas são tão reais. Reaprendi a valorizar o silêncio, o nada. Quando saio na rua: meu deus! desliguem esses sons de carros e cachorros antes que meus ouvidos sangrem! apaguem essa luz que me arde a pele, limpem meu caminho! tirem esses buracos, construções e desconhecidos! não quero, não quero, não preciso!

     Tudo torna-se real quando eu converso com você, mas o que conversar se nada há para dizer? Nenhum acontecimento novo, nada importante. E eu esqueço, esqueço e esqueço e me odeio! Não quero esquecer, mas demoro para te contar as coisas, percebe? E como lembrar de te dizer coisas tão supérfluas quando até banho eu esqueço de tomar? E esta tosse? meu deus, meu deus, é como se eu não aguentasse mais nada de nada e meu corpo quer me jogar para fora de mim mesma! Saia, saia de mim - e não volte, nunca mais. Sou tão ingênua de mim mesma que me sinto tão não eu, mesmo sabendo que serei sempre eu e passeando por aí, por aqui, por lá eu leio: "queria me ver com teus olhos". Que lindo! É lindo! Será que se eu me ver com os teus olhos vou, finalmente, conseguir me amar? Fiquei entusiasmada, excitada! Quero tentar, há como me ver com teus olhos? Eu quero me amar! Há tantas saudades neste meu coração, tão pequeno, acredito. Saudades de ti, de amigos, de família - coisas que tinha, dei valor e mesmo assim, é pó -, mas saudades enormes, meu bem, enormes de ter ânimo para colocar os pés no chão ao acordar. Acordar, sorrir e gritar "Bom dia Viatnã!".

Eu sou o rei do mundo, não sou?
- Do seu mundo, só se for.
- Mas é aquela sensação, você sabe, de sentir tudo que tudo em sua volta está em paz e que, sei lá, você ajudou a construir essa paz.
- Você, construir?
- É, conseguir...

     O rei do mundo da minha cabeça, onde tudo é distorcido - pro bem ou pro mal -, conversando comigo mesma, imaginando as piores e melhores retóricas de alguém que muitas vezes penso ser você, mas sou eu disfarçada para ver, quem sabe, consigo me convencer de algo - e nem sei do que quero me convencer! De que a vida é bela? De que há amor? Eu sei, eu sei. Mas como sorrir se minha vida, meu amor, estão tão longe de mim?

- Ah, quanto mimimi!
- É, isso não é sobre você, é sobre eu e meu mundo de esperanças e frustrações. E questões, muitas. Não me calo! (e, shh, ninguém me ouve)

Mas depois de tanto falatório mudo e conversas solitárias, no fim da noite, de baixo de cobertas, sabe o que fica dos meus dias? Um bonito "foda-se, logo menos vou visitar o seu mundo" e me re-encantar por todos os outros mundos. Eu vou, mesmo, acredite - mesmo assim, de cabelo oleoso, maquiagem borrada e pijama furado, eu vou.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Um bilhete para Ninguém


Eu acho que, entre todos os monstros soltos pelo mundo, aquele que as pessoas mais temem é o da felicidade.

Sabe por quê? As pessoas só reclamam de tudo - eu, inclusive, das reclamações das pessoas. Mas é a conclusão na qual cheguei: ninguém, no fundo do seu cérebro, naquele canto sombrio onde se vê aranhas e baratas: ninguém quer ser feliz. Como seria sorrir todos os dias? Como seria se todos os dias fossem feitos de arco-íris, borboletas e pessoas cantando na rua? É assustador.

Do que as pessoas iriam conversar já que tudo que fazem é reclamar? É tão difícil se responsabilizar por suas escolhas e/ou pensar em como mudar essa realidade que te faz sofrer tanto - ter paciência e esperança se essa mudança demorar? É mais fácil encontrar motivos de tristeza a cada unha batida no pé da mesa. Ou, sei lá, se acomode logo de uma vez, sente no sofá e espere a morte.

O problema em ficar reclamando todo tempo, e, muitas vezes, sem ouvir as reclamações dos outros, é criar, no outro, essa ideia de que você acredita que só você sofre, ou que seu sofrimento é maior do que a dos outros. Acredite, a vida não é fácil para ninguém - e não é álcool, drogas e orgias que te fará mais feliz. Pare um pouco, enfrente e por favor, cale-se um pouco. Você pode achar coisa mesquinha, de criança mimada eu falar isso: mas minha vida tá longe de ser perfeita e eu estou sofrendo e ninguém pára para me ouvir. E eu continuo a não conseguir te ignorar, eu preciso, tamanha a solidão, de qualquer conversa então ouço a reclamação de todos. Mas estou no limite e amanhã, coitada, minha psicologa terá que me aguentar - tudo bem, ela é paga, o difícil será não chorar.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Carta ao anonimato.

    Eu dou risada quando lembro dele dizendo ter gostado do meu tênis - mesmo porque é um tênis que eu adoro e usei porque ele é mesmo diferente. Diz que queria ter ido falar comigo, mas não havia o que falar e a garganta trava.  É, e eu só penso no que teria acontecido se tivesse segurado a sua mão. Não sou nada impulsiva, mas este é o momento que mais me cobro, me inconformo por não ter encontrado a coragem. 

    Fecho os olhos e o vejo passando em minha frente e se me concentro ainda mais sinto tudo o que senti, vejo sua mão e a minha mão mexendo um pouco para frente, infelizmente o insuficiente pela rapidez pela qual ele passou. Seria uma hora perfeita para alguém colocar o pé e você tropeçar, ia ser constrangedor, mas eu teria segurado sua mão mais tarde naquela noite. Acontece que eu realmente gostaria de saber o que teria acontecido... Se ele tivesse falado algo de meu tênis, eu iria dizer 'Obrigada' e rir e nos trombaríamos mais vezes, envergonhados. E se eu tivesse segurado a sua mão? Não consigo encontrar uma resposta e acabo chegando a conclusão: foi como foi e assim é perfeito, por que ficar pensando em alternativas? 

    Hoje seguro sua mão quando bem entendo, em qualquer momento - em todos os momentos.    Hoje você está longe e eu sinto falta de tudo que sou com você. Nunca ouve incertezas, insegurança sim,  mas a cada dia que te visito e posso olhar em seus olhos e segurar sua mão, é mais certo que você é o homem certo para mim. 

    E a saudade aperta, dói. Quero ser forte mas cada partida é demasiadamente angustiante para sorrir no dia seguinte. Ausência e distância é difícil de superar. Aquela solidão só desaparece com você ao meu lado. A paciência para conviver com outros é maior com você ao meu lado. E ele está ao meu lado, sempre, só preciso aprender a senti-lo, fechar os olhos e não imaginar como seria com ele ali, mas lembrar de quando estava e que estará. Estará: futuro que me desespera e me deixa assim, a comer unhas e acabar com minha mesada em chocolates.

   Minha psicóloga, em uma sessão, percebeu o quanto significativo você já é para mim, e então, essa dor não é de se estranhar. Quando a gente encontra alguém em quem confiar é um sentimento tão natural, não conseguimos ignorar. Quando percebi que ele é aquele que sempre procurei durante essa pequena parte da minha vida, e que é ele que estará comigo, entendi que amar é conseguir sorrir sozinha dentro de um ônibus somente por saber que sentimento tão puro ainda existe dentro de mim.

    Obrigada por tudo, 
sua, menina.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Pintando Você

    Bateu saudade.
    Saudade de chegar do centro espírita, pegar os lápis coloridos e pintar todos os desenhos da mais nova revistinha de colorir que minha mãe tinha acabado de comprar. Pintando enquanto pensava na aulinha que assisti: amar ao próximo. Para um criança as 'regras' de como você deverá agir em todas as situações da sua vida são bem, bem importantes, principalmente se, desde sua primeira respiração falhada, você se sente perdida, sem saber o que fazer, como agir. Incompreendendo as pessoas e suas ações.  Mas a vida não pára nas revistinhas de colorir, em seguida você quer desenhar e pintar seus próprios desenhos, chegar a perfeição das revistinhas - mesmo que sua pintura ainda falha. Mal sabe desenhar mãos e olhos e compra seu primeiro livro e começa a lê-lo logo que chega daquele mesmo centro espírita. "Talvez, se eu carregar esse livro sempre comigo eu saiba o que fazer em todas as situações e não terei vergonha de conversar com qualquer pessoa". E passo muitos, muitos anos - a cada ano carregando um novo livro - não tem como, não há regras sobre como agir com as pessoas, ou se há (e vamos ser claros, deve haver, é essa coisa de 'ser educado', simpático e sorrir e acenar), sei lá, não sei segui-las e deveriam mandar-me para uma prisão para reaprender a me comportar em lugares públicos, com amigos e com família. Tem de haver um jeito de fazer essa pressão de ser legal e boa e engraçada e simpática e confiável e amigável ir embora e ser somente quem você é (mas isso causa tantos, mas tantos problemas que, convenhamos, ás vezes é melhor fingir. Ás vezes, ou vira costume, vício e medo de confiar de novo - e cada nova pessoa é mais uma queda, perda da confiança).
    Um dia a gente aprende a andar com um livro que nós mesmo escrevemos, e por ter demorado tanto por te-lo escrito, fica tudo bem guardado. Difícil é aguentar as mudanças que fazemos nessas palavras a cada novo dia - uns dias mais do que em outros, sempre renovando. Mas mais complicado ainda é equilibrar, unir o aprendizado que está na revistinha, nos desenhos e nos livros com as experiencias da vida real. São caminhos opostos, como que, se você acredita em príncipe encantados, ele demorará para chegar. Do inverso, quando menos esperar, estará lá. 
    Nunca fui de esperar e clamar pelo príncipe. Creio que não me importava se fosse homem ou mulher, criança ou adulto, só queria alguém com quem eu pudesse ser eu mesma em todos detalhes de todos os dias pelo resto da minha vida, confiar no sentido mais puro da palavra - mostrar quem você é e esperar pelo melhor. Alguém com quem não precisasse fingir e, provavelmente por culpa somente minha, isso demorou a acontecer,  mas hoje eu tenho para quem correr e esse alguém está em uma banca de revista comprando uma revistinha de colorir e vindo me ver. Meus lápis estão em cima da mesa, e a porta aberta.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Edições

     Hoje está uma noite fria e eu prometi que essa escrita que está saindo de minha cabeça neste momento não irá sofrer deleções (?) ou modificações.  A noite não é fria, mas eu estou cansada. Faz tempo que não escrevo, minhas lendárias histórias continuam na metade. Como a minha vida. Sabe quando não sabe mais o que fazer, dizer, pensar e admirar? Acho que já passei por fases assim umas três vezes ao ano. Porque será? Eu estou com sono e amanhã acordarei cedo - umas oito horas, aproximadamente. Não quero dormir, gosto da noite. É silêncio e como diz Alanis "Thank you silence". Ando lembrando muito de minha adolescência esses dias e talvez esse seja o motivo de escritas tão pessoais, sem histórias e personagens para distrair a atenção de mim. Parece que este é o objetivo da minha vida: tirar a atenção de mim. Mas sou contraditória, adoro quando chega novos comentários em meus textos tão fracos (menos quando são propagandas ou pessoas vazias que não leem uma frase antes...enfim.). Muitas coisas mudaram desde a última publicação aqui. Publicação que ocorreu pois estava em férias e precisava, necessitava. Acontece que a faculdade nos faz pensar de mais, rouba nosso tempo e já não tenho como sentar, como agora, em frente a minha mesa toda bagunçada com água, comida, cola e dragões, e digitar. Digito sobre educação, sociologia e críticas a pessoas que não sabem do que falam. Digito planos de aulas, objetivos e justificativas sobre o porque um aluno tem que aprender algo que eu não sei. Digito coisas que não deveria, faço coisas que não deveria. E dou graças a - por ter conseguido privacidade. E uma cadeira giratória, para nesses momentos de pausas que vocês não sabem quais são, eu ficar rodando rodando tonteando. Cabeça no encosto e olho para os meus livro que, hum, não li todos. Os livros nos escolhe, a música também. Até as pessoas - e no momento acho que a solidão me escolheu. Mudo de posição, alimento meu vício e mexo no cabelo: oleoso. Preciso de uma presilha para não sentir nojo de mim mesma, mas a preguiça fala mais alto.  Eu não gosto de ser deixada no vácuo. Pessoas importantes me deixam no vácuo. Algumas, por minutos. Outras, por meses. Estou chegando a fase de coçar os olhos. Pessoas dizem para continuar forte, sempre ser forte. E quando o frágil chegar? Eu aprendi, quando a fraqueza chegar, todos os momentos fortes voltarão e você tremerá por eles. 

Beijos e boa noite.

P.S.: Porque quando nos fechamos ao  mundo, temos que nos abrir de alguma forma.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Reconstrução, parte 02.


Diário de Conrado, 01 de Agosto de 2041

Você deveria considerar um elogio ao me ouvir falar que tudo que merece é um tiro em sua garganta. Afinal, já tive atitudes bem piores como oferecer a alguém toda esperança de uma vida melhor e arrancá-la no sentindo mais forte da palavra, sentindo as veias romperem, o coração apertado, o sangue espalhando pelos meus braços enquanto retribuo seu olhar que tenta penetrar em minha alma. Não consegue, nem sequer tenho alma. Mas não estou dizendo que sempre fui um assassino, essa descrição é de algum filme de ação que por motivos que somente o seu Deus sabe ficou marcado.

Descobri como é o sentimento de tirar a vida de alguém ontem. Passei o último mês pensando e comprando. Decidi parar de inventar desculpas imagináveis, parar de adiar e agir quando, ao deixar Marília na casa de uma amiga (apesar dos choramingos da Nalanda), vi um dos grandes Vereadores de nossa cidade passear pela calçada, um charuto em uma mão e a outra no bolso da calça. Estava sozinho, não sei de onde vinha e pra onde ia. Um filho da puta. Foi o que ouvi saindo da boca de uma mulher do sétimo andar, no segundo prédio atrás dele. Estava, a mulher, com lágrimas nos olhos, nariz de palhaço. Estava, o Vereador, a olhar tão fixamente no seu caminho que parecia que a mulher falava comigo. Arrogância desnecessária. Ela viu e ouviu o tiro, ele não teve tempo de ver seu assassino, mas tudo bem foi, praticamente, um suicídio.

A sensação é estranha. Tirar a vida de alguém, mesmo que este mereça... Quem disse que mereceu? Quem foi o juiz? Eu fui, mas nada me dá o direito de ter feito o que fiz. Ouvir nos noticiários da madrugada que sua vítima morreu ali na hora cria um buraco em seu peito, você se sente fora da realidade: eu fiz mesmo isso? Virão atrás de mim? Então desliguei a televisão e se há algo para preencher o vazio é Comfortably Numb.

Mas, shh,  não acorde as crianças.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Reconstrução, parte 01.

Diário de Conrado, 24 de Junho de 2041.

            Nasci em noventa e um. Atualmente tenho trinta anos, casado, três filhos. Uma menina, um menino e outra menina. Se forem filhos da mesma mãe é uma questão insignificante. A primeira tem dezesseis anos, branca, cabelos castanhos, rosto de quem está perdendo a inocência - Marília. O segundo, negro, treze anos. forte, rosto de indagações - Bruno. A última, pequena, caçula, branca, seis anos, loira, rosto de quem acredita - Nalanda. Fui casado algumas vezes, amei somente uma e então é engraçado como a vida nos faz rir, para não chorar.
            Marília nasceu da qual amei. Conviveu com ela até seus dez anos, quando nossa casa fora assaltada e, em ação de proteção a cria, a minha belíssima Valéria reagiu obtendo como resultado sua ausência em nossa família. Não é necessário descrever o drama e traumas que isto causou a mim, em Marilia. Mas, tudo passa (fingimos superar). O incrível foi uma carta que recebi das mãos de um policial:

            “Querido irmão,
Sei que sua vida anda confusa com a falta de sua esposa e por ter que, finalmente, acertar as contas com sua filha. Queria poder ajudar-te, mas não posso. Há tempos guardo um segredo: a amava. Valéria conquistou não só você, mas a mim e várias outras pessoas e o que não posso fazer é fingir estar bem ao seu lado quando na verdade quero quebrar todos copos em casa e te dizer que você não a protegeu. É o que sinto, desculpa. Outro problema é meu filho, o Bruno. Ele está crescendo ao lado de uma maníaca depressiva, você sabe muito bem que este sempre foi meu medo. Minha psicóloga não ajuda, os remédios não fazem efeito. Peço que cuide dele, portanto.
Estarei bem e mandarei um abraço seu para Valéria,
                                                                                                          Tatiane”

Minha irmã, Tatiane, suicidou-se. Deixou o filho dormir na casa de um amigo e foi encontrada já morta, sem esperanças, as oito da manhã após a van da escola chegar e nada ouvir de gritos apressados e fechaduras sendo abertas. Os vizinhos perceberam a falta de música e cheiro de velas naquela manhã. O filho foi para a escola com seu amigo, sendo recebido pela psicóloga educacional.

***

Cresci em uma sociedade estranha. Nasci e tudo começou a ficar estranho. Não sei dizer o que houve antes do meu nascimento, e após. Todas informações que temos ficam soltas, sabemos o que houve, mas não quando. Esquecemos de tantos outros acontecimentos, nos tornamos indiferentes. Vivemos em uma época de conflitos e contradições. Idolatramos John Lennon, acreditamos que tudo que precisamos é amor – não amamos. Queremos um mundo não melhor – não mudamos.           
Adolescentes usam drogas, se dizem alcoólatras e sente orgulho de si mesmas por isso. Idolatram sexo com desconhecidos e dizem que as prostitutas são vagabundas que não merecerem respeito, que não tem dignidade e valor/amor a si próprio. E eu? Pergunto-me a diferença entre tais adolescentes e as prostitutas – ou melhor, prefiro a segunda. Crianças arrogantes, depressivas e egoístas (explicam a raiva dos outros por elas como inveja!) Portanto, isso não afeta minha vida enquanto fico fora de redes sociais e suas esperanças de mudar o mundo real virtualmente. Irrito-me ao ver telejornais, violência gratuita. Roubam aqui, matam lá; estrupam em todo lugar. E vão presos para serem traumatizados e são libertos para tirarem nossa liberdade e direito. É tudo uma contradição. Não consigo culpa-los por todas suas atitudes pois todos temos um passado – é tudo sempre culpa da educação que tivemos, das chances que não tivemos. Ou seja, da sociedade. Quem disse que tem de haver pessoas ricas, e outras pobres? Porque não podem distribuir igualmente os benefícios e malefícios do planeta? Quem está vigiando os atos de nossos governantes?

Eu.


domingo, 1 de maio de 2011

Deus contra humanidade

             
Soube por partes. OSama morreu. E pensei porque dar importância para a morte de alguém tão ruim? Pessoas assim não merecem ser lembrados, comemorar sua morte é dar muita importância – como quando aquele  namorado lindo termina com você, e você pensa “chorar por você é gastar lágrimas à toa”, sabe?. Realmente, não sei porque insistem em lembrar de pessoas más. O mundo ficaria mais saudável se lembrar-mos somente dos bons. E não quero ser amiga dos americanos, direi as mesmas palavras quando Bush morrer. Devemos lembrar deles somente nos livros de história, que tal?       


Vinte minutos depois me aparece o vídeo do Obama, gravado na White House. Bom, acordaram o cara a essa hora para isso? Coitado. Começo a ver o vídeo, em inglês, sem legenda e fico entendiada. Então ouço ‘They kill OSama’. E COMO ASSIM? Volto o vídeo. “Finalmente, uma semana atrás eu determinei que tínhamos informações (‘inteligencia’) suficientes para agir e encontrar Osama Bin Laden e trazê-lo para JUSTIÇA. Hoje, na minha direção (...) um pequeno grupo de americanos cuidaram da operação com extrema coragem e capacidade, nenhum americano foi morto – eles tomaram cuidado para não machucar cidadãos. Depois de troca de tiros, eles mataram Osama Bin Laden.”.  E então: fiquei feliz, indiferente, triste? Não, inconformada e com raiva, muita raiva. E sério OBama, justiça? Manda ele fazer horas comunitárias, nada melhor.
             
Posso parecer ingênua, mas gostava do OBama e quando OSama os atacou, não chorei como a maioria. Não gosto da mentalidade dos americanos, eles são tudo o que existe de ruim. Eles mereceram e deveriam ter mudado após o ataque de 11 de Setembro. Parar de querer dominar o mundo, de tudo ser do jeitos deles. Eles são um grupo de patricinhas mimadas – com exceções e sim, adoro  música america, daqueles artistas que são as exceções, por isso não suporto Black Eyed Peas e valorização de carro, mulher, roupa e dinheiro – isso É os Estados Unidos. E isso É muito triste. Eu não tenho carro, não sou modelo de mulher perfeita, tenho dinheiro suficiente e sim, sou feliz, obrigada. Osama morreu e estou com medo: quem vai ter a coragem de enfrentar os USA?
               
Mas, voltando. Todos dizem amar a Deus, sabe? O amam assim, loucamente, cegamente, e claro, falsamente. Não sou católica, porém acredito que somente Deus (essa força maior que nós, que não sabemos explicar e ficamos criando histórias para tentar entender, aproveitando para podermos manipular os outros, sabe?), de novo: somente DEUS pode tirar a vida de alguém. É também o que ouço sair da boca das mesmas pessoas que estão felizes pela morte do OSama – por isso e tanto mais, falsamente. 
               

Essa polêmica de pena de morte lembra-me da faculdade, no ano passado. Não sei porque o professor começou a discutir esse assunto. O que tive que ouvir? “Assassinos e estrupadores assinam seu atestado de óbito ao agir”. Ou seja, se você estrupa ou mata alguém, você dá o direito de alguém te estrupar ou de te matar. E faz sentido: “Não faça aos outros o que não queres que vos façam”. Então vamos pensar: Amanhã recebo a notícia de que mataram um primo. Portanto, tenho o direito de matar quem o matou. E o faço. Logo, torno-me assassina e a mãe do primeiro assassino me mata. Ela torna-se assassina. Meu namorado a mata. Ele torna-se assassino. Ou seja, não tem fim. Um mata o outro, é isso que todo mundo quer, mesmo? O mundo, tão lindo como é – natureza digo – acabar assim, um ser acabando com a vida de outro?

               
E sabe, parece que é o que querem. Quantas vezes você já fez mal pra alguém? Mesmo que seja não ter ajudado a senhora atravesar a rua, mesmo que seja um ‘vai se ferrar’ para um amigo ou inimigo. Tudo isso faz mal. Parece que o ser humano é naturalmente maldoso. Mas não é. Trabalho com crianças e já ouvi muito ‘Você não é mais minha amiga’. Dois minutos – ou menos – depois, estão se abraçando. E é por causa de ciuminho, ‘coisa de criança’. E porque essas ‘coisas de criança’ tem que se desenvolver e piorar com o passar dos anos? A sociedade nos infecta. Eu estou infectada, tenho vários problemas. “Doenças do século XXI”.
               

Parece que o fim está mesmo próximo. Tudo decaindo. Falam que a guerra pode acabar agora. Eu tenho medo de dizer que mal pode ter começado e sabe de uma coisa? Eu estou com apavorada. Tive um ‘insight’ de como o mundo está, essas pessoas. Minha classe, de PEDAGOGIA, tão desunida – que professores estamos formando? O que eles vão ensinar? Será que vão mesmo transformar a sociedade, como diz o ‘lema’ da turma – “A educação tem o poder de transformar o mundo”? 2012. Penso. Seres humanos merecem morrer. Estão estrangando a obra mais bonita de Deus. Quem lhes deu permissão para isso? De verdade, quem deixou a gente acabar com tudo – árvores, animais e seres da mesma raça (sim, SER HUMANO é uma raça. Negro, branco e pardo é invenção.)? Não é porque parecemos mais inteligentes que podemos sair por aí fazendo o que queremos. Cadê a humildade que todos dizem ter?
               
Porque, Deus, todo mundo é tão falso? Sim, você é muito falso. Fica falando de amor, respeito, humildade, de DEUS, de consideração, compreensão, solidaderiedada, sustentabilidade e SÓ FALA! E fala o nome dele em vão, e acreditam que tal coisa é proibida. Estou em desespero. 2012 tem que chegar, só assim, esse belo mundo será salvo de sua infecção – nós.
               
Realmente é muito, mas muito mesmo difícil viver só amor e respeito.


domingo, 16 de janeiro de 2011

Morte Fetal

O sono as vezes me cega. Sinto tanta preguiça de ver, ouvir, sorrir. Sempre durmo às duas da manhã; se demoro ao deitar viro o oposto do que sou: hiperativa e humorista. Mas, não sei, não sei. Não sei se é pelas pessoas ao redor, pela diversão delas ou por elas serem - só sei que tenho vontade de dormir bem pouco se, assim, eu me tornar mais simpática.
Já não sei se é o sono, as pessoas ou a loucura - sinto que não estou na realidade. Corpo estranho, silêncio em mim, música e falas ao redor que não me perturbam. E ele ali, todo besta, sorrindo para si e para mim. Também estou toda besta, feliz, satisfeita, calma e alegre - apesar de não me sentir.
Há momento que VOU CAIR! Por isso durmo, entende? Não é uma sensação falsa, eu vou cair mesmo, desmaiar e me espatifar no chão. E a qualquer momento. Ontem mesmo! Sentada, vendo-os comer - tudo belo, até que fiquei tonta! O que acontece, meu Deus?! Suor frio, corpo quente, imagens embaçadas, ânsia.
- Não estou bem.
Dor, dor e dor!
- Porque não fiz os exames, inferno?!


Jogo-me em seus braços, sinto sua vontade de ajudar em seu olhar junto com o não saber o que fazer.
- Ajude-me! Não estou ficando cega, mas Deus, como é ruim!
Consigo ver alguns dos amigos por lá, preocupados, distantes, com medo. Imagine uma foto antiga onde a borda é preta e vai esclarecendo quando chega ao meio. Então. Não é cegueira, é piração.
- Senta aqui.
Sento. E jogo rosto e braços em cima da mesa. Respiro fundo. Várias vezes. Penso em milhares de coisas ao mesmo tempo, coisas que podem ter me deixado nesse estado. Começo a melhorar.
- Estou melhor.
Suor frio, corpo quente, visão fodida. E seguro sua mão.
- Estou melhor.
Então, vamos comer - porque quando se é jovem e está na praia sem adultos responsáveis, o problema é a comida, sempre. Ele me guia. Eu consigo andar!
Estou com medo, perdida.
Ele não solta da minha mão, me olha e pergunta o que quero comer. Conversamos por segundos. A sensação não passa: estou perdida. Ando sem saber como o faço. Desvio do buraco sem saber o porque. Olho, observo, sem saber: O que são eles? Com esforço, lembro: Ah! Pessoas! Eu tento responder a pergunta que ele me fez. Lembro do que desejo comer. A imagem me vem perfeitamente e saborosamente:
- Eu quero comer... Como chama?
- Não sei, o que?
- Aquele negócio...
Andamos mais.
A imagem da comida ainda em minha cabeça. Está na ponta da língua, mas é o silêncio que predomina. A memória morreu de vez nesse processo. Sou, agora, definitivamente, uma criança. As palavras morreram. O significado morreu. A fala morreu. Então, todo o meu organismo seguiu o mesmo caminho, eliminando qualquer possibilidade de expressão. Uma escritora morreu sem ao menos saber escrever.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Pequena Ficção da Vida Real

Estou completamente em outro mundo. Por aqui há montanhas verdes e escuras. Mais há frente, prédios, torres. Pessoas negras, brancas, pardas. Brasileiros, americanos, francesses, chineses. Nesta época do ano vejo luzes de natal, enfeites de natal. Tudo brilha, tudo é cores. É São Paulo. Em sua diversidade e espírito natalino. Mas não se precipite! - sei como é impossível não amar São Paulo, mas para qualquer lugar que vá, é outro mundo. Neste mundo tu não conseguiras me acordar com beliscos ou mordidas. É lindo, mágico. Esquecer do mundo, de tudo e todos sendo amáveis ou odiáveis. É encantador. Principalmente pelas mentiras. Poder ser outro, digo. Misturar verdade com ficção. O real com o desejado. Agir totalmente inverso do que seria.
Eliane. 17. Praticamente casada. Um filho. 1. Menino. Francisco. Trabalho. Não, não penso em estudar. Quero, o problema é saber certamente esse querer. Atualmente em uma papelaria. Ele está com o Renato. Ah, desculpe-me, meu noivo. Desde sempre, oficialmente semestre passado. Idade nada diz, importante é sentir. Família está longe, é o motivo pelo qual vim. Turista? Não, não. Moro aqui faz umas semanas. Exatamente pra fugir da família e amigos antigos. Me faziam mal. Estou ótima, tenho a minha família agora. Saudade sempre sentimos, arrependimentos é escolha. Tenho, claro, mas nada que me faça chorar toda noite. Não sou forte, não demonstro o que sou. As conclusões são suas, deles - elas não me importam. É, talvez eu esteja somente mentindo para mim mesma. Mas, e você?
O problema em mentir são os ideais - principalmente se é um desses idealistas revolucionário e que enchem o saco. É necessário atuar, e isso não é para qualquer um. Primeiramente por não conseguir convencer o ouvinte. Segundo, por poder enganar até a si. Mas, vale o risco. Vale pela diversão. Você me acha ridícula, não? Sei o quanto odeiam ser menosprezados - é inaceitável falar mal da raça humana até em redações! Mas, é, é a minha diversão. Sacanear o mundo porque fui sacaneado? De jeito nenhum, sacanear o mundo porque ele merece.
*"Para mim, sacanear o mundo é a solução, a panaceia contra o tédio. Implicar, provocar, exasperar os hipócritas, os desclassificados, os intolerantes, os pretensiosos sem razão, os vizinhos, os burqueses, os pães-duros, os mitômanos, os medíocres incuráveis, aqueles que falam de política, aqueles que tratam as garotas como putas porque não conseguiram transar com elas, aqueles que criticam os livros que não leram, aqueles que esfregam o dinhero deles na cara dos empregados, aqueles que detestam a política, e chega, basta os piores."
Não, não sou assim. Só fingi. Eu poderia ser, eu quis. E estava indo bem, te juro. Mas pra que? Não minto. Nem em viagens. Sou um desses idealistas revolucionário, não sei fingir futilidade. Mas há graça em sair da realidade. Há salvação. Ir para outro mundo estando com os pés em casa, sem querer ser convencida, é minha especialidade. Caso contrário, da onde extrairia minha alegria?
*"A sociedade sofre, e eu sofro com ela."
* trecho tirado do livro Hell Paris 75016, de Lolita Pille.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Todo Amor Que Houver Nessa Vida


Saí de lá de mansinho, e tanto que você nem percebeu minha ausência entre sua cama e seu braço. Seus dedos já não me acariciavam - você dormiu e, talvez sim, como um anjo. Não fiquei tempo suficiente para saber, pois naquele momento sentia nojo de você, querido. Certo, não tanto nojo quanto sentia de mim mesma.
Ah, você não poderia entender, poderia? Acontece baby, que meu partido é um coração partido e as ilusões estão todas perdidas. Meus sonhos foram todos vendidos, tão baratos que eu nem acredito. Sabe, aquele garoto queria mudar o mundo e hoje freqüenta festas do “Grand Monde”. Os meus heróis morreram de overdose, os meus inimigos estão no poder e eu só quero uma ideologia pra poder viver. Por enquanto, o que me resta é pagar um analista para nunca mais ter que saber quem eu sou.
Desci pelas escadas mesmo, distrair o choro. Fechei o portão do prédio e a desgraçada – desespero? angustia? - veio com tal impacto que me sentei na sarjeta. Olhei para o céu e vi o preto, o escuro – não havia estrelas naquela noite e assim sendo, minha cabeça caiu em meus joelhos com as lágrimas começando a cair e o ódio que sempre senti por mim voltando, aumentando.
- Sara!
Maldita voz que nunca vou esquecer. Não precisei olhar para cima, para ver quem era: Lucas.
- Espera aí!
Tirei meus saltos guardando-os na bolsa, sujando tudo que havia lá dentro. Respirei fundo, levantei e comecei a correr, mas não fugi mais longe do que dois quarteirões, meus pulmões cansaram de mim e para ajudá-los acendi um Marlboro Light e comecei a andar. Já não sabia onde eu estava, sua casa ficava do outro lado da cidade, lado que nunca conheci antes... Mas quem se importaria? Não ligo em me perder, não mais (e qualquer coisa, era só chamar o táxi.).

Para ser sincera me perdi em você. Você que enchia minha bola com todo seu amor, me levava pra festa e testava meu sexo com ar de professor, não entende que eu só fazia promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom?E se eu te escondi a verdade, baby, era pra te proteger da solidão. Tudo isso faz parte do show, meu amor. Confundia tuas coxas com as de outras moças te mostrando toda dor. Sou do tipo que vaga na lua deserta das pedras do Arpoador, digo ‘alô’ ao inimigo e encontro um abrigo no peito do meu traidor. Faz parte do me show, meu amor. Inventava desculpas, provocava brigas, dizia que não estava. Vivia num clip sem nexo, num pierrô-retrocesso, meio bossa-nova e rock’n roll. Faz parte do meu show, meu amor.
Mas não veja isso como algo romântico, não é sua culpa - talvez, bem talvez, seja minha afinal fui eu quem te procurou e eram bons tempos aqueles. Ficar te olhando, flertando, te desejando e só. Mas gato, eu acabei estragando tudo quando fui te perguntar o que faria mais tarde aquela noite.
Sabe, a minha intenção não era de ficar. Era só aquela noite e, talvez, alguma outra, assim, ‘quem sabe quando’. Mas você teve que se apaixonar por mim e estragar tudo, me chamar pra sair no outro fim de semana sendo que eu deveria ter te visto lá, no mesmo lugar, e por um tempo fingirmos não nos conhecer, sabe, só pra vontade crescer. E deveria ter sido mais fria – algo que percebi que, por mais que tente, não consigo – e não aceitado o convite. Enfim, era tarde de mais.
Lucas, a gente conversou sobre isso. Você era um tanto exagerado, dizendo sempre que eu era o amor da sua vida daqui até a eternidade, que nossos destinos foram traçados na maternidade. Paixão cruel essa, desenfreada. Me trazia mil rosas roubadas para desculpar suas mentiras, suas mancadas. Exagerado, jogado aos meus pés, você era mesmo exagerado. E eu que adorava um amor inventado... Dizia que nunca mais ia respirar se eu não te notasse, que poderia morrer de fome se eu não te amasse. Que por mim largaria tudo, ia mendigar, roubar, matar – até as coisas mais banais. E eu que adorava um ‘é tudo ou nunca mais’. Você era mesmo exagerado. Mostrava que por mim, você largava tudo – carreira, dinheiro, canudo. E eu que adorava um amor inventado...!
Tivemos brigas nesse pouco tempo juntos e você sempre voltava com flores. Gostava delas, mas deixava-as em meu quarto enquanto morriam. O problema é que elas não me convenciam de que tudo ia dar certo pra gente, e por que não me convenciam? Oras, pelo seu olhar quando as entregava. Tanto orgulho, certa arrogância. Fazia aquilo para que eu ficasse perto de você, não porque era seu jeito de ser... Bom, talvez fosse, mas não foi isso que eu entendi.
Você nunca soube que esse relacionamento terminou nesse dia que aqui descrevi e já não temos porque mentir, você fingir que perdoou, tentarmos ficarmos amigos sem rancor. A emoção acabou, querido - que coincidência é o amor: a nossa música nunca mais tocou. Pra que usar de tanta educação? Pra destilar terceiras intenções? Desperdiço o meu mel, devagarzinho, flor em flor, entre os meus inimigos, beija flor. Eu protegi teu nome por amor, em um codinome beija flor. E eu que não respondia nunca para qualquer um na rua, beija flor, deixei você dizer dentro de minha orelha fria segredos de liquidificador. Você sonhava acordado, um jeito de não sentir dor, enquanto eu prendia o choro e aguava o bom do amor.
E aquele outro, ajudou. Era a pura decadência, darling. Mas não se preocupe, não te culpo por isso, nunca culpei. Eu só estava passando por uma fase difícil e vi em você alguém que me ajudaria e ir mais para baixo principalmente depois que você quis me ensinar a fumar e me convidou para um vinho. Você era o meu Sebastian, como já te disse. Era o lado ruim dele, tudo que eu precisava.

E não me perdi, descobri onde estava logo que virei a segunda esquina e me lembrei que você morava perto de onde nos conhecemos, e sabia como ir pra casa de lá, então eu fui. E descobri porque não havia tantas estrelas naquela noite: já não era noite, era bem noite – cinco horas da manhã, pra mais. Pois é, o que falar para os pais? Tudo bem que já tinha dezoito anos, mas para eles era: ‘ainda’ dezoitos anos. É, eu tinha um lugar pra fugir. Mas, nossa, como você me fazia mal! Desculpa, mas é - qualquer um pode confirmar. Gostava de ti, era divertido ás vezes, mas não dava. Momento errado. Pra mim, pra você.
O nosso amor, querido, era uma mentira que nossas vaidades queriam. O nosso amor foi inventado pra gente se distrair, e agora, acabado, a gente pensa que nunca existiu. Te ver já não era tão bacana quanto a semana passada e eu nem arrumei a cama, parece que fugi de casa e deixei tudo fora do lugar: café sem açúcar, dança sem par.
Ando fugindo muito do texto, né? Descobri onde estava, certo. Não estava de noite, certo. Mas também não tinha amanhecido, sorte que guardei o número do moto táxi na carteira e voltei pra casa. Era bom andar de moto, pena que era com um cara feio e que eu não conhecia e foi aí que pensei: meu próximo namorado tem que ter moto. Claro que isso não era verdade, não por completo. Darling, darling, sair com você era tão complicado quanto mandar meu gato sair de cima do sofá. Tudo era tão complicado! Lembra daquele dia que dormi na sua casa? Pais não ficaram sabendo, claro, já não gostavam desse relacionamento, mas eu não podia voltar pra casa. Tudo bem, ok, estava na amiga. Ah! Decadência! Voltando ao passado, aquela vontade de poder estar em todos os lugares do mundo, menos em casa. Agora me lembro, por isso aceitei ir pra sua casa. Digo, ‘dormi’ na sua casa... Claro que não dormi, não durmo na casa dos outros. Fiquei acordada a noite inteira – das cinco às sete da manhã – para as oito, eu decidir ir a pé pra casa. Pura autodestruição, você sabia e nada podia fazer. Imagino a impotência que sentiu nessa hora. Não, Lucas, não me importava com o que você achava, com o que você quisesse que eu fizesse. Queria você para ter aonde fugir, e com quem já que a solidão me espanta. Vão dizer que te usei, mas não sou má assim, gostava da sua companhia, do que fazíamos, mas acontece que aquela não era eu. Só isso.
Naqueles dias, cada aeroporto era um nome no papel, um novo rosto atrás do mesmo véu – um estranho que me quer. E eu queria tudo, tudo, no próximo hotel. Você só queria me amar, mas não havia promessas: era só um novo lugar. Você sabia, sou somente uma miserável, vagando derrotada, uma semente mal plantada. Não, não sei amar.
O meu problema não é só sua presença – é o mundo! A raiva disso tudo voltou com você, sempre revoltado chegando a ser irracional. Nossas conversas sobre seu Deus, sobre o fim do mundo e respeito pelo planeta faziam meu medo aumentar, querido. O Cristo sempre com os braços sempre abertos e sem proteger ninguém: me dava vontade de forrar a parede do meu quarto com manchetes de jornal pra ver que não é nada sério. E você não percebe o quanto essas conversas mexiam comigo? Dou meu desprezo pra você que me ensinou que a tristeza é uma maneira da gente se salvar depois. Veja que as possibilidades de felicidade são egoístas, meu amor - depois da grande noite, eu vou esconder a cor das flores e mostrar a dor, a dor. E eu quero te contradizer, dizer que o mundo é azul, te perguntar qual é a cor do amor, te informar que o meu sangue é negro, branco, amarelo e vermelho. Eu sei que não nos convidaram pra essa festa pobre que os homens armaram pra nos convencer a pagar sem ver toda essa droga que já vem malhada antes d'agente nascer, mas saiba que por essa grande pátria desimportante em nenhum instante eu vou trair-la.
Depois do nosso fim, Lucas querido, eu me entristeci. Mas quem nunca ficou triste? As guerras são tão tristes e não tem nada demais. Deixem-me! Correndo atrás dos carros feito um cachorro otário. Deixem-me! Quebrando objetos inúteis como quem leva uma topada. Deixem-me! Amolar e esmurrar a faca cega, cega da paixão e dar tiros a esmo e ferir o mesmo cego coração. Mas não precisa chamar a polícia, nem o hospício, não - todos sabem, que eu não posso causar mal nenhum a não ser a mim mesmo.
Esse seu jeito “Pedra, Flor e Espinho” não me convenceu, mas causou medo. Um medo que você não entendia e que eu não podia controlar. Senti medo de você, querido, medo de verdade. Sua presença me causava pavor, e tudo o que eu quero era a sorte de um amor tranqüilo com sabor de fruta a mordida. Queria a poesia que a gente não viveu, o tédio que não virou melodia. Queria não sentir o que sentia quando estava perto de você: uma puta – sem querer ser grossa.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

cap. 23, pág. 64


Nunca Me apresentei; E era o que deveria ter feito logo no começo, afinal, ninguém sai falando de um sonho para qualquer um. Nomes, idades e até sorvete preferido tem que vir primeiro. Mas Eu não tenho nome – não gosto desse lance; não tenho idade – não sou vampiro; não tenho gosto para comidas – só para humanos. Aí que está: Eu não sou. Já conhecestes alguém que não é? Já o viu? Ao menos, o sentiu? Sentir, assim, quando Ele passou ao teu lado na rua daquele sábado ensolarado, e fez com que seu olhar fosse direcionado a somente Ele? Ou Ela. Quando estamos por perto, qualquer um percebe, seja homem ou mulher o observador. Seja homem ou mulher o Observado. Na verdade, o Observado – que nunca, e repito, nunca, para de observar – não se importa em nascer homem ou mulher. Em olhar para homens ou mulheres. Em transar com homens ou mulheres. Seres como Eu, ligam para mais o fato desse capítulo ser justo o número 23 – igual do filme, 23. Nós gostamos de Hospitais. Quanto mais cheios, melhores. Sempre estamos por lá, seja para consulta, seja para observação. Aquele lugar cheio de gente, andando de um lado para o outro, esperando. Aquela aflição, esperança, medo, nervosismo, tristeza, surtos, alegrias e até calmarias ás vezes. A melhor parte é quando chega uma ambulância, quando os médicos começam a correr e a gritar: Ataque cardíaco, mulher de 79 anos, na sala de emergência 12. Correria total. Médicos por todos os cantos, familiares entrando em pânico, desconhecidos dando um jeito de olhar e meus olhos brilhando. É a vida. Sentir a vida. Traz paz. E não como: ainda bem que não é comigo – como vocês pensam; é como: estarei ansioso para chegar a minha vez. Mas poucos de nós somos médicos. Primeiramente porque não é para salvar seu corpo que estamos por aqui. Segundo porque muitos de nós fazemos o inverso do que deveria acontecer, e nos tornamos um de vocês. E está cada vez mais difícil saber quem somos. Até hoje não sei ao certo se vi alguém assim, como eu. Nascemos em uma família qualquer, temos corpo de humano, nome de humanos e se nos envolvermos muitos, sentimentos de humanos. Sentimentos é o que atrapalha, por que, uma hora outra, desejamos ser e sentir e não pensar, por um segundo ao menos, não pensar. Ser normal. Quantas vezes já chorei de raiva por não ser simples? Pra falar a verdade, somente uma. Mas veio com o desespero. Desespero que surge lá do fundo. Um medo incontrolável. Vontade de desistir e falta de coragem para agir. Mas, vocês não conseguiriam entender nada disso. Por mais que se identifiquem, não é igual. O maior problema é a observação. Estamos aqui somente para isso, e ás vezes, temos que perguntar. Mas, ninguém gosta de responder às minhas perguntas.
Porque eu?
Nem eu sei o porque. Ás vezes esqueço que não sou um de vocês, ás vezes torço para ser um de vocês, só para poder ser amado de um jeito normal. Eu sei o porquê, só preferiria não saber.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A festa, as cores e o rapaz.


Estava no começo da minha juventude: 18 anos. Algumas coisas haviam mudado e não acreditava como me deixavam comprar bebidas sem haver uma expressão de ‘sério?!’, apesar de muitas vezes escutar o comentário: ‘mas tem carinha de 12!’. Normal.

Porém nesse fim-de-semana haveria uma festa, dessas de homens de terno, músicas calmas no começo e DJ no fim. Minhas amigas estariam todas ocupadas com vestibulares e família, mas criei coragem para ir sozinha – fazia tempo que queria saber como é ir em lugares lotados sem ninguém conhecido por perto, enchendo o saco. Havia colocado um vestido longo preto e decotado – claro, com uma sandália igualmente preta. Gostava de usar preto por ser tão branca, a diferença me encantava.

Cheguei tarde na tal festa, como queria, e logo observei quem estava por lá: ninguém que conheço... Tinha conseguido o convite pela tia da Bárbara, da high society. A Bárbara, enfim, estaria por lá, mas teria obrigações de parente da anfitriã.

Andei em volta do salão e vi que havia um espaço aberto com flores, pedras e um chafariz. Mas não cheguei a ir, estava um vento frio e o bar era do outro lado e virando para a direita, vi a Bárbara chegando com um sorriso no rosto:

- Ah que bom que você veio! Pelo alguém de quem eu realmente gosto está aqui! – Dois beijinhos no rosto – E como você está? Tá linda viu? As outras meninas não puderam vir né, véspera de vestibular é bem complicado, mas espero que você goste da festa mesmo assim!

E sem conseguir responder a nada, ela virou e foi cumprimentar o primo. Eu segui meu caminho rumo ao vinho.

O balcão formava um quadrado dentro do salão, dentro havia as bebidas e os bar-man. Fora ficavam os bancos, no qual me sentei e mudando de idéia pedi uma batida de vodka com morango, a entrega fora rápida. Virei de costas para o bar a principio de ver as pessoas... Mulheres, vestidos; homens, terno. Sério, tinha cada roupa feia nesse lugar. Meninas da minha idade usavam vestidos azuis, florescente! Eu ri, principalmente quando vi duas delas vestidas igualzinhas, mas acabou ficando chato de se ver e voltei a mexer no meu copo.

*

As horas passaram e o jantar já tinha sido servido – eu comi tudo que não me deu nojo... Comida de rico é estranha: lagostas e polvo não eram muito agradáveis. Fiquei no básico arroz, strognoff, salada e outras coisas que não sei o que era. Sentei na mesa onde tinha o meu nome e conversei com as pessoas ao lado por no máximo dez minutos – que foi o tempo de comer e arrumar uma desculpa para não ouvir mais o rapaz ao lado falar.

Voltei ao meu lugar e quando pedi um copo de refrigerante, se intrometeram:

- Refrigerante? Com tanta bebida de graça?

- Né, pois é.

- Já bebeu de mais?

- Também.

- Acontece.

E sentou do meu lado, o que me fez olhar para seu rosto. Cabelos pretos, olhos pretos, pele branca. O que me fez olhar para seu corpo. Terno, sapato, proporcional a face. Era um homem, uns vinte e cinco anos, aparentava ser bem decidido, sucedido, confiante. Sorri, e logo virei para receber meu refrigerante enquanto davam á ele o uísque.

Tomou-o em um gole, nada mais pediu e continuou lá. Eu ficava rindo, e ele olhando para mim.

- Gosto do seu cabelo, não é preto.

...

- Afinal, que cor é essa?

- Tentativa de vermelho.

- Uau, fracassou legal hein.

- Cala boca.

- Haha, mas poxa...! – ficou de frente para o meu lado. – Eu ainda assim disse que gostei do seu cabelo.

- É, valeu.

Da outra sala veio o som da música,lenta. Ele olhou para o chão. Eu tentava demonstrar que não o via. Olhou para mim e riu.

- Quer dançar?

Olhei para ele, roubei o uísque que ele havia pedido.

- Eu não tenho idéia de como se faz isso, querido.

- Vem logo. – me pegou no braço fazendo o banco girar e segurou minha mão. Levantei quase caindo e lá fomos nós, “dançar”.

Não conhecia a música que estava tocando, bossa-nova me parece, mas não importa também. Logo que chegamos ao salão ele segurou minhas mãos, olhou para mim olhando para ele, puxou-me para perto e começou a mexer os pés e eu tentando acompanha-lo. Pisei no pé dele várias vezes, de propósito. Subi em cima dos pés dele por vontade própria, mas logo desci. O salão não estava tão cheio, só com alguns casais lá do outro lado.

“Dançamos” mais um pouco, até quando pisei no pé dele, de novo, e acabei por me apoiar na parede. Ele me segurou pela cintura, nos olhamos e nos beijamos. Sua mão continuava em minha cintura, a outra estava em meu pescoço. Eu o abraçava e mexia em seu cabelo. Ele começou a descer, beijar meu pescoço e descer para meus seios. Colocou a alça do vestido para o lado, abaixou um pouco o pano preto que tampava meu corpo, e logo viu meu sutien azul não-florescente e de renda.

- Aqui não.

Com tudo no lugar, fomos mais adiante, naquela parte de flores, pedras e chafariz. As pedras no chão formavam um caminho, ao lado dela havia as flores e árvores e antes delas, tinha o chafariz, depois das pedras, tinha uma casa. Bem pequena, de criança brincar. Ao caminho dessa casa, o vi. Bem ali, ELE. Que infernos ele estava fazendo lá? Já tinha me tido que não gostava de tirar a liberdade das pessoas de terem outras. Que me queria, mas também adora a intensidade de uma paixão desconhecida; Ele me viu também, sorrimos e ele sumiu. Entrei na casinha com o Vinte E Cinco Anos um tanto abalada pelo encontro. O Vinte E Cinco Anos colocou-se a minha frente e perguntou se estava tudo bem.

- Claro. - Sorriu, acariciou meus cabelos e me beijou.

A casa não era tão pequena, não era de criança brincar – não sei nem porque a fizeram bem lá. Mas não havia mais ninguém á menos de cinco metros de distância. E havia também uma cama. A casa era inteiramente branca, por fora e por dentro. Não havia uma porta de entrada, logo era a sala e ao lado um ‘quarto’, onde estava a cama, também branca. Não havia portas – a não ser a do banheiro. E enquanto eu estranhava tudo isso, o Vinte E Cinco Anos me puxou pela mão, me pegou na cintura e recomeçou com os beijos. Recomeçou no pescoço, nos seios enquanto eu desabotoava sua calça, tirava seu paletó, arrancava a gravata. Logo estávamos somente com de roupa íntima e nos olhamos sem fôlego, sem entender e sorri; sorrisinho de lado, safado. Ele adorou e estávamos na cama, cada vez mais sem menos fôlego, cada vez mais sem entender, cada vez mais sem pensar.

O desconhecido, o passado ali presente e o perigo deixaram tudo excitante, intenso. Logo estávamos deitados, olhando para o teto branco.

- Tenho que ir.

- Me liga.


Ele sabia que não tinha seu telefone, nem ele o meu.